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A FEITICEIRA

NOTA 6,0

Longa homenageia clássico
 seriado mostrando os bastidores
de uma recriação da série, mas se
perde entre clichês e exageros
Um longa-metragem ser encaixado na programação da televisão é perfeitamente possível, mas adaptar um programa da telinha (para a época atual cai melhor o termo telão privado) para a telona do cinema não é fácil. Hollywood sempre tenta fazer essa transição recorrendo a sucessos do passado ou contemporâneos. Sex and The City mesmo após o término da série fez certo barulho nos cinemas e ganhou uma continuação e Agente 86 foi resgatado do túnel do tempo de forma ágil e de fácil assimilação por novas platéias. Já As Panteras pisou fundo na adrenalina e nas referências pop e trombou com um público que apostou na nostalgia e se decepcionou. Esses são exemplos mais recentes, mas existem muitos filmes baseados em seriados que foram lançados na época do boom das fitas VHS e que hoje até os canais abertos os relegaram ao ostracismo. Somando muito mais erros que acertos, parece que a indústria de cinema americana não aprendeu a lição e continua investindo na idéia. Ainda há planos, por exemplo, de uma produção baseada na série “24 Horas” que hoje sobrevive de reprises com audiência capenga. Se a intenção é tão forte, o melhor mesmo é procurar formas alternativas de resgatar a memória do seriado e foi isso que a diretora Nora Ephron fez com A Feiticeira recorrendo ao recurso da metalinguagem, o que certamente decepcionou muita gente que comprou a idéia de ver uma espécie de episódio esticado, mas se deparou com um novo projeto, um remake do programa dentro do filme. É surpreendente o número de críticas negativas que até hoje esta comédia recebe, principalmente do público que acompanhava a série que foi ao ar entre 1964 e 1972 e foi reapresentada a exaustão pelas décadas seguintes. Claro que não é uma obra digna de prêmios e elogios rasgados, mas certamente cumpre bem seu papel de entreter, tanto é que passou pela avaliação das platéias mais jovens que provavelmente nunca assistiram a um episódio do seriado e boa parte dos espectadores do sexo feminino. Mexer com ícones culturais, e neste caso um fenômeno quase mundial, é complicado e merece respeito a opção de ousar em ser até certo ponto original entregando aos espectadores algo que eles não esperavam, mas é aquela velha história, o público reclama da mesmice, porém, quer sempre mais do mesmo. Há muitos anos a idéia de levar o clássico para as telas grandes rodava pelos estúdios e no início dos anos 90 Meryl Streep era a mais cotada para ser a protagonista e parecia animada, mas nem mesmo uma ponta lhe deram quando o longa finalmente saiu do papel.

A história começa bem e já mostrando a que veio, montar uma nova versão do seriado, assim jogando por água abaixo as expectativas de quem esperava ver logo na introdução a tradicional e marcante música da abertura do seriado (ela entra bem mais a frente). Jack Wyatt (Will Ferrell) é um ator egocêntrico que está desesperado por causa dos fiascos que foram seus últimos trabalhos, mas ainda assim ele se sente a cereja do bolo. Sua carreira pode dar um grande salto com o convite para entrar no elenco do remake da clássica série, mas o projeto depende de uma atriz que consiga fazer o movimento de nariz que a protagonista sempre fazia na hora de suas trucagens e nenhuma candidata consegue (cadê os efeitos especiais neste momento?). Wyatt tem a sorte de encontrar uma jovem por acaso mexendo o nariz perfeitamente e o melhor que parece encarnar a personagem sem ao menos saber atuar, tudo o que ele necessitava para virar a verdadeira atração do programa. Apesar de ser protagonizado por uma mulher, Samantha, o ator faz questão que seu personagem Darrin seja a estrela e que sua companheira de trabalho não ofusque seu brilho, porém, o que ele não sabe é que descobriu uma verdadeira feiticeira que com seu carisma e simpatia vai roubar a cena. A tal moça é Isabel Bigelow (Nicole Kidman) que resolve mudar de vida radicalmente abrindo mão de seus poderes e decidindo ir morar sozinha e levar uma vida comum como qualquer ser humano, porém, ela não poderá ficar longe da magia até para as atividades domésticas mais simples. Ao se apaixonar pelo companheiro de trabalho e perceber que ela é quem era a grande estrela do show, Isabel passa a usar seus truques para conseguir o que quer, inclusive o amor de Wyatt que passa de uma hora para a outra demonstrar por ela um amor exagerado e sem controle. Em uma história paralela e pouco desenvolvida temos os veteranos Shirley Maclaine e o “máquina de atuar” Michael Caine, respectivamente Iris Smythson, a intérprete de Endora, a mãe da bruxinha da série, e Nigel Bigelow, o pai da feiticeira de verdade. Ele condena o interesse da filha em viver como uma mortal, mas está sempre por perto para lhe dar conselhos e cortejar Iris. O roteiro se apóia na idéia da vida imitando a arte com toques fantasiosos que tem até a sua metade uma narrativa promissora e de certo modo inovadora, contando obviamente com citações à inspiração original, inclusive recriam a abertura da série de modo bem particular. O caldo entorna quando Ferrell, em um papel que seria de Jim Carrey e que poderia ajudar nas bilheterias e prestígio do filme, começa a cansar com suas declarações de amor e caras e bocas e o roteiro partindo para clichês e um final previsível e açucarado. Todavia, o humor é sustentado pela boa química do casal protagonista que acaba repetindo na vida real os conflitos fictícios das gravações. A graça, ainda que bem inocente, está nas atitudes e falas de Isabel, requentando as piadas do diferente se adaptando ao mundo normal e moderno.

Nora, especialista em tramas românticas açucaradas como Mensagem Para Você, apostou no saudosismo, incluindo a constante música-tema do seriado ao fundo, não perdeu o foco do relacionamento amoroso dos protagonistas, com direito a uma sogra palpiteira e sarcástica, ainda que ela fosse parente somente nas gravações, mas não acertou no tom cômico. Ela tem o mérito de não deixar o roteiro escrito pela própria em parceria com a irmã Delia Ephron descambar para o caminho das piadas idiotas e de gosto duvidoso, algo raro no gênero já a alguns anos, mas os momentos de humor que ela proporciona soam muito ingênuos. Isabel parece inocente demais, quase uma criança descobrindo o mundo. A feiticeira original tinha uma postura mais adulta e inteligente, mas é preciso lembrar que a bruxinha interpretada por Nicole é a atriz que fará o seriado fictício e não a própria e jamais chegou sequer a assistir o programa, pois segundo ela sua família a proibia (uma das boas sacadas). Dessa forma ela não percebe que serve apenas como escada, um termo artístico para colaborador, para Wyatt brilhar. É um pouco confuso distinguir três realidades em um mesmo produto. Temos uma visão do que ocorre acerca das gravações do seriado, outra da trama dos intérpretes fora de cena e ainda outra percepção do filme em si e ainda podemos nos deixar influenciar por aqueles que batem na tecla que a série original protagonizada por Elizabeth Montgomery era bem melhor e diferenciada. De qualquer forma, A Feiticeira não é a tragédia que tantos falam, simplesmente é uma comédia simpática e leve no melhor estilo sessão da tarde, algo que muitos tentam fazer e acabam conseguindo resultados catastróficos diferentemente deste projeto. A crítica especializada e até mesmo alguns espectadores precisam aprender a ser mais condescendentes com as produções criadas para puro escapismo e esquecer os Oscar e demais prêmios que o elenco tenha em casa, algo que no caso pesou na hora das considerações de muitos críticos. Apesar de no final as coisas serem resolvidas rapidamente e tudo ser previsível, em tempos em que é difícil achar uma comédia censura livre com letras maiúsculas um filme como este é um achado para curtir com a família e amigos sem constrangimentos.

Comédia - 102 min - 2005
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1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
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9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
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