![]() |
| NOTA 6,0 Longa homenageia clássico seriado mostrando os bastidores de uma recriação da série, mas se perde entre clichês e exageros |
A história começa bem e já mostrando a que veio, montar uma nova versão do seriado, assim jogando por água abaixo as expectativas de quem esperava ver logo na introdução a tradicional e marcante música da abertura do seriado (ela entra bem mais a frente). Jack Wyatt (Will Ferrell) é um ator egocêntrico que está desesperado por causa dos fiascos que foram seus últimos trabalhos, mas ainda assim ele se sente a cereja do bolo. Sua carreira pode dar um grande salto com o convite para entrar no elenco do remake da clássica série, mas o projeto depende de uma atriz que consiga fazer o movimento de nariz que a protagonista sempre fazia na hora de suas trucagens e nenhuma candidata consegue (cadê os efeitos especiais neste momento?). Wyatt tem a sorte de encontrar uma jovem por acaso mexendo o nariz perfeitamente e o melhor que parece encarnar a personagem sem ao menos saber atuar, tudo o que ele necessitava para virar a verdadeira atração do programa. Apesar de ser protagonizado por uma mulher, Samantha, o ator faz questão que seu personagem Darrin seja a estrela e que sua companheira de trabalho não ofusque seu brilho, porém, o que ele não sabe é que descobriu uma verdadeira feiticeira que com seu carisma e simpatia vai roubar a cena. A tal moça é Isabel Bigelow (Nicole Kidman) que resolve mudar de vida radicalmente abrindo mão de seus poderes e decidindo ir morar sozinha e levar uma vida comum como qualquer ser humano, porém, ela não poderá ficar longe da magia até para as atividades domésticas mais simples. Ao se apaixonar pelo companheiro de trabalho e perceber que ela é quem era a grande estrela do show, Isabel passa a usar seus truques para conseguir o que quer, inclusive o amor de Wyatt que passa de uma hora para a outra demonstrar por ela um amor exagerado e sem controle. Em uma história paralela e pouco desenvolvida temos os veteranos Shirley Maclaine e o “máquina de atuar” Michael Caine, respectivamente Iris Smythson, a intérprete de Endora, a mãe da bruxinha da série, e Nigel Bigelow, o pai da feiticeira de verdade. Ele condena o interesse da filha em viver como uma mortal, mas está sempre por perto para lhe dar conselhos e cortejar Iris. O roteiro se apóia na idéia da vida imitando a arte com toques fantasiosos que tem até a sua metade uma narrativa promissora e de certo modo inovadora, contando obviamente com citações à inspiração original, inclusive recriam a abertura da série de modo bem particular. O caldo entorna quando Ferrell, em um papel que seria de Jim Carrey e que poderia ajudar nas bilheterias e prestígio do filme, começa a cansar com suas declarações de amor e caras e bocas e o roteiro partindo para clichês e um final previsível e açucarado. Todavia, o humor é sustentado pela boa química do casal protagonista que acaba repetindo na vida real os conflitos fictícios das gravações. A graça, ainda que bem inocente, está nas atitudes e falas de Isabel, requentando as piadas do diferente se adaptando ao mundo normal e moderno.
Nora, especialista em tramas românticas açucaradas como Mensagem Para Você, apostou no saudosismo, incluindo a constante música-tema do seriado ao fundo, não perdeu o foco do relacionamento amoroso dos protagonistas, com direito a uma sogra palpiteira e sarcástica, ainda que ela fosse parente somente nas gravações, mas não acertou no tom cômico. Ela tem o mérito de não deixar o roteiro escrito pela própria em parceria com a irmã Delia Ephron descambar para o caminho das piadas idiotas e de gosto duvidoso, algo raro no gênero já a alguns anos, mas os momentos de humor que ela proporciona soam muito ingênuos. Isabel parece inocente demais, quase uma criança descobrindo o mundo. A feiticeira original tinha uma postura mais adulta e inteligente, mas é preciso lembrar que a bruxinha interpretada por Nicole é a atriz que fará o seriado fictício e não a própria e jamais chegou sequer a assistir o programa, pois segundo ela sua família a proibia (uma das boas sacadas). Dessa forma ela não percebe que serve apenas como escada, um termo artístico para colaborador, para Wyatt brilhar. É um pouco confuso distinguir três realidades em um mesmo produto. Temos uma visão do que ocorre acerca das gravações do seriado, outra da trama dos intérpretes fora de cena e ainda outra percepção do filme em si e ainda podemos nos deixar influenciar por aqueles que batem na tecla que a série original protagonizada por Elizabeth Montgomery era bem melhor e diferenciada. De qualquer forma, A Feiticeira não é a tragédia que tantos falam, simplesmente é uma comédia simpática e leve no melhor estilo sessão da tarde, algo que muitos tentam fazer e acabam conseguindo resultados catastróficos diferentemente deste projeto. A crítica especializada e até mesmo alguns espectadores precisam aprender a ser mais condescendentes com as produções criadas para puro escapismo e esquecer os Oscar e demais prêmios que o elenco tenha em casa, algo que no caso pesou na hora das considerações de muitos críticos. Apesar de no final as coisas serem resolvidas rapidamente e tudo ser previsível, em tempos em que é difícil achar uma comédia censura livre com letras maiúsculas um filme como este é um achado para curtir com a família e amigos sem constrangimentos.Comédia - 102 min - 2005


0 Comments